COLABORE

Missão peregrina de Nossa Senhora da Abadia da Água Suja por Justiça Socioambiental

Igreja

Protetora das pessoas atingidas pela mineração visitou comunidades ao longo do Rio Paraopeba

Publicação: 31/01/2024



Com a aproximação do marco dos 5 anos do rompimento da barragem da Vale S.A, na mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, se aproxima, também, as manifestações populares em torno das consequências ocasionadas pelo desastre-crime. Uma delas foi a Peregrinação por Justiça Socioambiental com Nossa Senhora da Abadia da Água Suja, que seguiu o curso do Rio Paraopeba, entre os dias 24 e 28 de janeiro, alargando a tenda da Romaria e professando por Ecologia Integral em defesa das comunidades atingidas pela mineração.

A chegada da imagem se deu na véspera da V Romaria pela Ecologia Integral a Brumadinho, dando início aos atos em memória ao rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, ocorrido em 2019. No altar da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, a Imagem Santa foi louvada com o terço das 5 cores e ofertada por elementos trazidos pelo Coletivo de Atingidos. Cada mistério do terço, representado por uma cor, resgata as histórias de luta, resistência e fé do povo do Vale do Paraopeba.

No dia 25, data em que o desastre-crime completou 5 anos, Nossa Senhora da Abadia da Água Suja, padroeira e protetora das pessoas atingidas pela mineração, caminhou junto aos familiares das vítimas, comunidade atingida e romeiros, acalentando os corações feridos e desesperançosos, em um ato de resistência, de união na fé e na luta por justiça.

Há 5 anos, a lama de rejeito despejou 12 milhões de metros cúbicos de metais pesados no Rio Paraopeba e na represa de Três Marias, ceifando a vida de 272 pessoas e impactando 26 municípios. É o caso da aldeia indígena Naô Xoan, em São Joaquim de Bicas, visitada por Nossa Senhora da Abadia da Água Suja, no dia 27 de janeiro. O território foi invadido pela mineração que contaminou o Rio Paraopeba, fonte de vida para o povo Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe, os impedindo de praticar a espiritualidade, manter os costumes de pesca e cuidado com as plantações, nem mesmo de consumo de água limpa.

No dia 28, a missão peregrina seguiu até a ponte do Rio Paraopeba, entre os municípios de de Fortuna de Minas e Pequi, onde, das águas contaminadas pela ação predatória da mineradora Vale, fez-se surgir a Imagem Padroeira, recebida em carreata até a Capela de São Sebastião, na comunidade de Pindaíbas, em Pequi, e apresentada por Dom Francisco Cota, bispo da Diocese de Sete Lagoas e presidente da Comissão para a Ecologia Integral e Mineração da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) Regional Leste 2, durante a celebração eucarística. 

Pessoas atingidas caminham na V Romaria pela Ecologia Integral a Brumadinho 


As peregrinações em romaria são tradições populares da comunidade católica ao longo dos séculos. Em alguns países da América Latina, inclusive no Brasil, além das romarias devocionais, há as romarias em defesa dos pobres e da terra, quase sempre com apoio de movimentos da sociedade civil organizada. 

Em um ato de resistência e esperança, a V Romaria pela Ecologia Integral a Brumadinho marcou os 5 anos do rompimento da barragem da Vale na Mina do Córrego do Feijão. O evento, que ocorreu durante a manhã do dia 25 de janeiro, uniu comunidades atingidas, manifestantes, lideranças religiosas e sociedade civil em uma peregrinação por justiça socioambiental.

A V Romaria teve início com uma coletiva de imprensa que contou com a presença de familiares das vítimas, representantes de comunidades atingidas ao longo da Bacia do Paraopeba, líderes religiosos e autoridades locais. O ponto alto da Romaria foi a celebração da missa por Dom Francisco Cota no Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora do Rosário, em Brumadinho. 

Depois, os romeiros seguiram em caminhada até o letreiro da cidade, entoando hinos, músicas e dizeres em memória e por justiça às consequências do desastre-crime, onde a Romaria se encontrou com um ato organizado pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum).

Diante dos 5anos de impunidade que marcam a tragédia, visto que os responsáveis não foram responsabilizados criminalmente, além do início do julgamento do pedido de habeas corpus do presidente da Vale à época do rompimento, Fábio Schvartsman, a Romaria deste ano apresenta como tema a urgência de justiça, inspirada no lema bíblico “Das alturas, orvalhem os céus. E da terra, que chova a justiça (Is, 45,8)”. 

Cinco anos de injustiça


As famílias das vítimas fatais seguem lutando para que os responsáveis pelo desastre-crime sejam responsabilizados. Elas também cobram o encontro das três vítimas ainda não encontradas: Tiago Tadeu Silva, Maria de Lurdes Bueno e Nathália Araújo. Há 5anos, comunidades atingidas ao longo da Bacia do Paraopeba e da Represa de Três Marias também lutam pela preservação das memórias, do reconhecimento dos direitos enquanto atingidos, da recuperação do meio ambiente assolado pela lama de rejeitos tóxicos e pela não repetição de crimes desta natureza. 

Pelo menos desde o rompimento da barragem em Mariana, em 2015, a Vale sabia que o refeitório e as instalações administrativas da mina de Córrego do Feijão estavam localizados dentro da rota dos rejeitos de minério em caso de rompimento. Mesmo assim, a empresa não tomou providências para garantir a segurança dos trabalhadores.

As investigações da polícia civil mineira e da Polícia Federal concluíram que o rompimento da barragem foi causado por uma série de falhas da Vale, incluindo a negligência na manutenção da estrutura e a omissão de informações sobre os riscos envolvidos. 

Apesar das provas, até hoje, ninguém foi responsabilizado pelo desastre. O processo na justiça federal, que busca responsabilizar a Vale, a Tüv Süd (empresa que emitiu o certificado de estabilidade da barragem) e 16 réus, que eram diretores e gestores das empresas, ainda está em andamento. As famílias exigem a responsabilização das empresas Vale e Tüv Süd em todas as esferas, seja no Brasil ou no exterior, e que a punição sirva, também, para impulsionar mudanças no setor da mineração, nas legislações e na fiscalização. 

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