Aumento das temperaturas, enchentes, longos períodos sem chuvas, estação de seca em rios perenes. O contexto das mudanças climáticas têm lançado um grande alerta sobre a necessidade da construção de políticas públicas capazes de mitigar os impactos sociais sobre comunidades que, de algum modo, já estão expostas à vulnerabilidade social. Como olhar dedicado a esta questão, o Intercâmbio Cultural de Povos Latino-americano foi realizado no Vale do São Francisco, Norte de Minas Gerais, fortalecendo o diálogo e a construção de saberes entre povos tradicionais latino-americanos.
Foto: No Quilombo Croatá, intercambistas visitam lagoa que está seca mas que durante muitos anos possuiu regime perene.
A partir do tema "Água como bem comum", o intercâmbio percorreu entre os dias 19 e 24 de março às comunidades quilombolas de Croatá e Sangradouro Grande, em Januária, e a comunidade indígena Xakriabá, em São João das Missões. A iniciativa foi realizada com a participação de agricultoras e agricultores familiares do povo indígena Kukama do Peru e do povo indígena Quéchuas da Bolívia, que de alguma forma vivenciam a escassez hídrica em seus territórios. Enedina Silva, liderança da comunidade quilombola de Croatá, refletiu que: “Para nós povos tradicionais que vivenciamos diariamente os impactos das mudanças climáticas em nossas vidas é fundamental receber esse intercâmbio em nosso território e lutar pela construção de estratégias conjuntas para minimizar os impactos nos nossos modos de vida”.
Em sua 4ª edição, o Intercâmbio Cultural de Povos Latino-Americanos foi uma iniciativa realizada pela Cáritas França e Agence Française de Développement (AFD), com o apoio da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e Cáritas Diocesana de Januária. Walter Prysthon, encarregado de projetos da Cáritas França na América Latina, pontuou que essa iniciativa cumpriu um papel muito importante ao unir povos de diferentes culturas e fortalecer o espaço de troca de experiências entre eles, pois esses encontros permitiram que cada pessoa da comunidade se reconhecesse nos testemunhos partilhados. Ao analisar os desdobramentos do intercâmbio, afirmou: “aqui, ao ouvir cada comunidade, pude aprender que a água não é só água, água é território, é luta, é identidade cultural, é inovação, água é um direito”.
A confluência de muitas águas: o intercâmbio cultural
Foto: Delegação boliviana fala sobre os desafios socioambientais do território tradicional
Ao longo dos 5 dias, em cada território tradicional, os intercambistas latino-americanos tiveram a oportunidade de falar sobre a sua cultura tradicional e a resistência coletiva pela preservação socioambiental. Andrea Paleon falou sobre a sua luta pela preservação do território do seu povo, a Reserva Nacional de Fauna e Flora de Tariquía, na Bolívia. De acordo com a agricultora familiar, não há falta de água em seu território, mas há um grande desafio na distribuição dos recursos hídricos porque as comunidades estão localizadas em áreas de montanha.
Diante dessa realidade, a cisternas de captação de água tem sido uma estratégia das comunidades locais para armazenar água para a produção de alimentos e para o consumo humano. Embora a comunidade de Paleon esteja em uma área de preservação, ela denuncia a ação ofensiva de empresas petroleiras que têm explorado a região e contaminado as fontes de água da comunidade. “Nós somos constantemente pressionados a aceitar o avanço da exploração de petróleo em nosso território tradicional, quem não aceita é perseguido pelas empresas e acusado de não se preocupar com o desenvolvimento do país”, ela afirma.
Mesmo diante da violência, ela reconhece que a articulação com outros povos e instituições parceiras tem fortalecido a comunidade e que utilizar a comunicação, através do celular e da rádio, como instrumento de luta é fundamental para o processo de mobilização do território. De acordo com ela, para chegar à rádio mais próxima, é necessária uma viagem de dois até Tarija.
Por Sarah Gonçalves